Pingos nos Is: O que programa da Jovem Pan conta sobre os bastidores da tentativa de golpe
12 min read
Os quatro anos de governo de Jair Bolsonaro (PL) representaram o pico de audiência do programa Os Pingos nos Is, transmitido pela Jovem Pan. Os vídeos publicados pelo programa em 2022 somam mais de 1 bilhão de visualizações somente no YouTube – fora as transmissões pela rádio e TV fechada. Nos bastidores, o Pingos, porquê era chamado, ficou sabido porquê o “programa do Bolsonaro”.
A Escritório Pública apurou com funcionários e ex-funcionários da Jovem Pan, ouvidos sob anonimato, que, enquanto a audiência crescia, o programa era impenetrável pela direção da empresa, que dava epístola branca para comentaristas alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro disseminarem informações falsas e minimizarem os atos que culminaram na tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023. Um deles, Paulo Figueiredo, segundo a denúncia da Procuradoria-Universal da República (PGR) apresentada no dia 18 de fevereiro, teria utilizado o espaço na emissora para fortalecer a trama golpista.
Os relatos descrevem que havia interferência do governo na emissora e que servidores da Presidência de Jair Bolsonaro – além do próprio ex-presidente – teriam aproximação direto aos responsáveis pela escolha dos temas abordados pelo programa, sugeriam pautas, entrevistas e o foco oferecido para as notícias serem favoráveis ao governo.
Por que isso importa
- Denúncia da PGR indica que a emissora teria sido utilizada pelo governo para recrutar suporte a Bolsonaro, inclusive quanto aos atos de 8 de janeiro.
- Ainda que a Jovem Pan esteja sob investigação, o governo Lula voltou a fazer repasses de publicidade federalista à empresa.
A reportagem teve aproximação a um print que indica uma dessas situações. Em uma conversa pelo mensageiro WhatsApp, o portanto editor-chefe do Pingos Clayton Ubinha relata ter recebido um pedido do ex-presidente para incluir uma entrevista no programa. “O Bolsonaro tinha pedido pra Tereza Cristina entrar nos Pingos hoje também. Ainda não lancei lá porque estou ajustando o horário”, ele teria escrito em 2 de março de 2022.
Naquele momento, poucos dias depois o início da guerra entre Ucrânia e Rússia, havia incerteza sobre o fornecimento de fertilizantes ao Brasil. Outros jornais, porquê a Folha de S.Paulo, haviam reproduzido uma fala da portanto ministra da Cultura Tereza Cristina de que impactos do conflito poderiam aumentar o preço dos vitualhas no país.
Mas no Pingos foi dissemelhante. Depois a suposta sugestão de Bolsonaro, a ministra de vestimenta foi incluída no programa e passou 25 minutos sendo entrevistada sobre a questão. Expôs o projecto do governo de procurar alternativas no Canadá, falou sobre a possibilidade de buscar fertilizantes em terras indígenas e outras pautas defendidas pelo governo. Não foi interrompida nem pressionada pelos entrevistadores.
“O Bolsonaro pedia e o Pingos atendia”, disse uma pessoa que tinha incumbência de chefia na emissora na idade. “Ou melhor, a Jovem Pan atendia”, continuou.
Três pessoas ouvidas pela Pública afirmaram que Ubinha, que comandou o Pingos em seu período de maior audiência e deixou a emissora em 2023, depois 16 anos, era o responsável por tratar com o ex-presidente e pessoas próximas a ele. “O editor-chefe falava diariamente com o coronel Mauro Cid [ex-ajudante de ordens de Bolsonaro]. Tudo que era falado ali [no programa] era combinado”, disse uma ex-funcionária.
“A redação inteira sabia, porque ele mesmo [Ubinha] falava. Ele dizia: ‘Está vendo essa notícia que o Bolsonaro leu na live? Eu que mandei pra ele’. Sempre que alguém precisava de alguma informação do Bolsonaro na redação, era o Ubinha que fazia essa interlocução”, disse outra pessoa que tinha posição de chefia. Ubinha foi procurado, mas não quis responder aos questionamentos da reportagem.
“O Tutinha [então presidente da Jovem Pan] torrou uma grana para transformar a rádio em uma televisão. Quando acabou a reforma, ele estava preocupado em conseguir retorno logo. E percebeu que o jeito mais fácil era se aliando de vez com Jair Bolsonaro”, avalia o jornalista Guga Noblat, que trabalhou na emissora porquê comentarista entre 2019 e 2022.
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Em resposta à Pública, a Jovem Pan afirmou que “nenhuma taxa do jornalismo da Jovem Pan foi, é ou será conduzida de forma tendenciosa aos interesses deste ou daquele grupo político” e que mantém uma “risca editorial independente e apartidária”. A emissora também afirmou que publicou “editoriais” nos quais “reiterou o seu suporte ao sistema eleitoral, às instituições nacionais e, sobretudo, à Democracia” durante o ano de 2022. A empresa afirmou que Clayton Ubinha e Paulo Figueiredo foram desligados e que não comentaria sobre suas condutas.
Paulo Figueiredo: comentarista da Jovem Pan é um dos 34 denunciados pela PGR
Paulo Figueiredo foi indigitado pela PGR porquê integrante do núcleo de coordenação da disseminação de desinformação na trama golpista. Ele foi um dos 34 denunciados pelo procurador-geral, Paulo Gonet, no dia 18 de fevereiro, pelos crimes de golpe de Estado, derrogação violenta do Estado Democrático de Recta, organização criminosa armada, dano qualificado pela violência e grave ameaço contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.
Neto do ex-ditador João Figueiredo (1979-1985), o economista recebeu, no final de novembro de 2022, informações seletivamente vazadas por militares das forças especiais do Tropa, conhecidos porquê “kids pretos”, que queriam pressionar o portanto comandante do Tropa general Freire Gomes a aderir aos planos golpistas. A denúncia da PGR aponta que os acusados de tramar um golpe de Estado sabiam que precisavam de suporte e pressão públicos a termo de concretizar seus objetivos. Para isso, contavam com o alcance do programa.
A relação do Pingos nos Is com a trama golpista, no entanto, não se deu somente depois a guia eleitoral de Bolsonaro, destaca a denúncia da PGR. Em agosto de 2021, Jair Bolsonaro entrou ao vivo no programa e desacreditou o sistema eleitoral com base em afirmações falsas. Ele acusou, por exemplo, que um hacker teria violado o sistema eleitoral em 2018 e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) teria ocultado provas sobre os fatos.
O vídeo foi removido pelo YouTube em alguns canais por moderar desinformação, mas segue disponível no meato do programa com o termo “sistema eleitoral invadido” em seu título.

Kids pretos combinaram vazamento de epístola golpista à emissora
A interação entre pessoas ligadas ao ex-presidente e comentaristas e funcionários da Jovem Pan com o intuito de pautar o programa é narrada pela PGR.
“Assista o Pongo [sic] nos Is hoje. O Prec, o Espora Dourada e o Bigode serão expostos”, disse o coronel Corrêa Netto, integrante da Cavalaria do Tropa, a Mauro Cid, por volta das 14h de 28 de novembro de 2022. “Eu sei… Hahahahaha”, respondeu Cid, conforme descrito em um dos trechos da denúncia.
Quatro horas depois da troca de mensagens, Paulo Figueiredo fez no programa exatamente o esperado pelo coronel. O comentarista antecipou a divulgação de uma epístola de pressão assinada por militares da ativa – proibidos de se posicionar politicamente – e citou três dos 14 generais do Elevado-Comando que seriam “contra uma ação mais direta, mais contundente das Forças Armadas”. “Eu vou fazer isso porque eu acho que o povo brasílico tem que saber quem é quem”, afirmou.
Foram mencionados Tomás Paiva, do Comando Militar do Sudeste – atualmente comandante do Tropa –, Valério Stumpf, do Estado-Maior do Tropa, e Richard Nunes, do Comando Militar do Nordeste, cujos codinomes, segundo a Polícia Federalista (PF), eram Prec, Espora Dourada e Bigode.
Para o procurador-geral da República, Paulo Gonet, a troca de mensagens revela que há uma “ação coordenada” entre os militares e Paulo Figueiredo. A denúncia aponta também que a divulgação do nome dos generais contrários a uma tentativa de golpe de Estado era segmento da estratégia de pressão ao portanto comandante do Tropa, general Freire Gomes, organizada pelos kids pretos em parceria com o general Braga Netto (PL).
Braga Netto, candidato a vice-presidente pela placa de Jair Bolsonaro, também é um dos denunciados porquê segmento do “núcleo crucial da organização criminosa”, supostamente liderado pelo ex-presidente.
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Segundo a denúncia, o vazamento da epístola vinha sendo planejado antes mesmo de os nomes de seus signatários serem definidos. A investigação da PF obteve aproximação a mensagens trocadas entre os tenentes-coronéis Sergio Cavaliere e Ronald Ferreira, que ironizavam: “logicamente que, ‘acidentalmente’, irá vazar”, disse o primeiro. “A versão que vai sem querer parar na mão de alguém aí, eu até já sei quem, ela vai também com os nomes”, acrescentou Ferreira.
Depois do programa, os militares foram alvos de ofensas nas redes sociais. Entre 29 de novembro e 3 de dezembro de 2022, o Aos Fatos identificou ao menos 39 compartilhamentos de correntes difamatórias com foto e nome dos generais. Os textos acusavam os oficiais de serem “melancias” – verdes por fora e vermelhos por dentro [alegoria que visa associar os indivíduos ao Partido dos Trabalhadores].
Em prova à PF, Freire Gomes afirmou que Figueiredo “foi um dos responsáveis pelos ataques pessoais e caluniosos que recebeu”. O general afirmou também que os golpistas primeiro tentaram convencê-lo pacificamente, “mas, tendo ele resistido, passaram aos ataques incisivos”.
Procurado pela Pública, Paulo Figueiredo afirmou não ter sido notificado formalmente da denúncia, disse que somente “reportou com precisão os bastidores das Forças Armadas” e afirmou sentir-se honrado de “estar ao lado de grandes patriotas” no que ele considera uma perseguição política. Ele negou saber de “projecto golpista” ou ser favorável a um golpe de Estado e disse lamentar que o general Freire Gomes “seja tão ‘sensível’”. Figueiredo negou espalhar notícias falsas, disse ser “líder integral de audiência” nos programas de que participou e afirmou que “quem fala determinadas coisas merece uma porrada na rostro mesmo”. [Confira resposta na íntegra]
Uma transmissão ao vivo feita pelo consultor político prateado Fernando Cerimedo depois o segundo vez das eleições brasileiras, em 4 de novembro de 2022, também foi citada na denúncia da PGR. Na ocasião, o consultor, que trabalhou na campanha de Javier Milei à presidência da Argentina, apresentou um dossiê com falsas evidências de fraude nas eleições presidenciais brasileiras.
De convenção com Mauro Cid, as alegações de Cerimedo teriam sido produzidas por quem ele chamou de “nosso pessoal”. Meses depois, em fevereiro de 2023, foi ao ex-ajudante de ordens de Bolsonaro que Figueiredo recorreu para solicitar o contato do consultor. Procurado, o legisperito de Mauro Cid não se manifestou até o momento.
Em julho de 2023, a Pública, em parceria com o UOL e o Meio Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (Clip), revelou que um funcionário de Cerimedo foi contratado pela campanha de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nas eleições do ano anterior. A reportagem mostrou também que o deputado federalista viajou à Argentina em missão solene, às vésperas do segundo vez, em viagem “patrocinada” pelo consultor.
À reportagem, a Jovem Pan afirmou que “a fala de terceiros (…) não é submetida à edição prévia, sobretudo porque grande segmento de seus programas são transmitidos ao vivo. Nesta risca, os terceiros – convidados, entrevistados, colaboradores, entre outros – responsabilizam-se integralmente pelas suas opiniões pessoais, as quais não representam a posição institucional da Jovem Pan”.
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De pingo em pingo: emissora enfrenta implicações na Justiça e quedas de verba e audiência
Nos bastidores da redação da Jovem Pan, Figueiredo era sabido por entrar em embates com jornalistas, porquê Guga Noblat, que afirmou ter sido chamado para “a porrada” pelo comentarista depois discordâncias políticas. Relatos ouvidos pela Pública o apontam porquê um “protegido” da direção em função de suas boas relações com integrantes do governo Bolsonaro.
Em 2022, por exemplo, a Jovem Pan foi obrigada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a dar espaço para três direitos de resposta da campanha do portanto candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que havia sido chamado de “mentiroso” e “descondenado” e culpado de perseguir cristãos caso fosse eleito. A Jovem Pan alegou estar sendo censurada. Figueiredo apareceu no ar com nariz de palhaço e Ana Paula Henkel leu uma receita de bolo no ar – uma referência à prática dos jornais que substituíam conteúdos censurados pela ditadura militar de 1964.
O envolvente começou a mudar depois o 8 de janeiro de 2022, quando a Jovem Pan virou alvo de um sindicância social do Ministério Público Federalista de São Paulo (MPF-SP) por veicular em seus programas conteúdos “desinformativos com potencial para minar a crédito dos cidadãos na idoneidade das instituições judiciárias brasileiras e na rigidez dos processos democráticos por elas conduzidos”.
Seis falas de Figueiredo no Pingos nos Is foram citadas na justificativa para a fenda do sindicância. Em 22 de dezembro de 2022, por exemplo, o comentarista afirmou que uma eventual convocação por Bolsonaro de uma mediação das Forças Armadas seria declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federalista (STF), mas sustentou que a Golpe somente teria poder “enquanto as Forças Armadas cumprirem as decisões que eles fizerem”.
O comentarista fez também “diversas falas justificadoras” do 8 de janeiro, de convenção com o MPF. “As pessoas estão revoltadas com a forma porquê o processo eleitoral foi levado, elas estão revoltadas com a truculência com que certas instituições têm violado a nossa Constituição”, disse durante a invasão.
Em 10 de janeiro, a empresa afastou Figueiredo e outros comentaristas alinhados ao bolsonarismo. Uma semana depois, eles foram demitidos. Ao longo de 2023, os programas, incluindo o Pingos, passaram a ser mais enfáticos ao expressar que o 8 de janeiro havia sido uma ameaço à democracia.
De convenção com fontes ouvidas pela reportagem, advogados foram chamados para inculcar os jornalistas e comentaristas a moderar os termos que usavam para se referir principalmente ao ministro Alexandre de Moraes – “aquele careca” e “cabeça de ovo” eram expressões costumeiras. Tutinha, portanto responsável pela emissora, saiu da presidência, e seu irmão, Marcelo Roble, considerado mais equilibrado, assumiu a coordenação.
O ano de 2023 também foi de mudanças nos volumes de verba recebida pela empresa, já que o governo Lula repassou somente R$ 270 mil em publicidade federalista à emissora. A verba foi de R$ 2,4 milhões em 2024, enquanto na gestão Bolsonaro o valor totalizou ao menos R$ 18,8 milhões, segundo dados do portal da Secretaria de Informação Social. Questionado, o governo federalista não respondeu por que voltou a anunciar na Jovem Pan.
Em junho de 2023, o MPF ajuizou uma ação social pública contra a emissora e pediu o cancelamento de suas outorgas de radiodifusão à Justiça Federalista de São Paulo. Além do Pingos nos Is, o teor publicado nos programas 3 em 1, Morning Show e Risca de Frente foi estimado pelas autoridades, que afirmam ter encontrado “numerosas condutas ilícitas, que configuram abusos de sua liberdade de radiodifusão e violações graves tanto dos princípios quanto das finalidades sociais que lastreiam as outorgas”, porquê descreveram os procuradores Yuri Corrêa da Luz e Ana Letícia Absy.
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A ação social pública pediu também que a Jovem Pan seja condenada ao pagamento de R$ 13,4 milhões de indenização por danos morais coletivos e obrigada a veicular mensagens sobre a confiabilidade do processo eleitoral. Em março de 2024, a Advocacia-Universal da União (AGU) se posicionou contrária à cassação das outorgas, mas concordou com a imposição das outras penalidades. À reportagem, a Jovem Pan afirmou que “não comentará sobre qualquer processo e/ou investigação em curso”.
Com a guia eleitoral de Bolsonaro, as demissões e o termo do fluxo de informações restrito do governo com o programa, a audiência do Pingos despencou. Em 2022, vídeos com a íntegra de cada programa atingiram uma média de 850 milénio visualizações, com mais de 40 deles ultrapassando 1 milhão. Em 2024, a média de visualizações foi de 51 milénio por programa e nenhum deles passou de 100 milénio. Os dados são do YouTube Data Tools.
A perda de audiência da Jovem Pan coincidiu com a subida do programa Oeste Sem Filtro, da Revista Oeste, que conta com ex-comentaristas do Pingos, porquê Augusto Nunes e Ana Paula Henkel. O programa, que estreou em novembro de 2022, teve uma média de 453 milénio visualizações em 2024.