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16 de Agosto, 2022

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René Magritte: o universo surrealista do mais filósofo dos pintores

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René Magritte, um dos grandes nomes do surrealismo, dizia que o seu primeiro sentimento foi o mistério. Ele se lembra de, ainda bebê, ter ficado olhando para uma caixa perto do berço cujo conteúdo não conhecia. Esta sensação de mistério inexplicável permeia toda a obra do artista, que nunca se dispôs a revelar suas ideias nem explicar seus quadros.

Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Bruxelas

“Minhas pinturas evocam o mistério, e de fato quando alguém vê um dos meus quadros, se pergunta: o que isto quer dizer? Isso não significa nada, pois o mistério não quer dizer nada, é incompreensível”, explicava o pintor belga, que se tornou um dos maiores inventores de imagens de todos os tempos.

O primogênito dos Magritte, René François Ghislain Magritte (1898-1967) não tinha uma boa reputação na vizinhança. Aliás, seus dois irmãos também não. Eles eram conhecidos como enfants terribles, que amarravam gatos vivos nas cordas das campainhas, brincavam com fezes e andavam pelos telhados, entre outros episódios que aterrorizavam os moradores do bairro. A infância de René Magritte foi difícil, marcada pela instabilidade financeira do pai alfaiate e as crises depressivas da mãe, que se suicidou quando o artista tinha apenas 13 anos.

Sua adolescência foi um período conturbado. Péssimo aluno, Magritte tinha uma personalidade irônica e escondia um vício secreto: estava aprendendo a pintar. Três anos após a morte de sua mãe, ele abandona a escola e aos 18 anos entra na Académie Royale des Beaux-Arts de Bruxelles, deixando para trás as cidades onde nasceu e cresceu, sua Lessine natal, Châtelet e Charleroi, no sul da Bélgica, para nunca mais voltar.

Magritte tentou esquecer o passado e sempre se recusou em falar sobre este período de sua vida. “Eu detesto o meu passado e os dos outros também”, disse certa vez em uma entrevista. No entanto, os livros que leu, as inúmeras sessões de cinema mudo que frequentou e sua fascinação pelas imagens nunca o deixaram. “As imagens foram o espaço onde René Magritte moldou sua vida”, comenta o psicanalista Jacques Roisin, autor de uma biografia sobre o artista.

Magritte era um provocador. Certa vez lhe perguntaram o que havia por trás de suas imagens. “Não há nada” respondeu, “atrás delas tem as cores dos quadros, as telas. Por detrás das telas existe uma parede. As coisas visíveis sempre escondem outras coisas visíveis, mas uma imagem não oculta nada”, disse. Eis o enigma Magritte. Em “A traição das Imagens”, mais conhecido comoCeci n’est pas une pipe”, ele dizia que como era impossível encher aquele cachimbo com tabaco, o desenho era apenas uma representação e não um cachimbo real. “Se eu tivesse escrito embaixo da minha pintura ‘isto é um cachimbo’, eu teria mentido.”

Georgette

Georgette Berger, a musa e modelo do pintor surrealista, é um capítulo a parte. Os dois se conheceram quando Georgette tinha apenas 12 anos. Com o início da Primeira Guerra Mundial, os dois jovens acabaram se afastando. Mas a vida também traz boas surpresas, e sete anos mais tarde, se reencontraram por acaso no Jardim Botânico de Bruxelas. Em 1922, depois de prestar o serviço militar, René Magritte e Georgette se casam e assim ficam por 45 anos.

Antes de Magritte se tornar famoso, Georgette trabalhava na Maison Berger, loja da família que vendia material de pintura. O seu salário foi a principal renda do casal durante anos. Ela representava a estabilidade emocional para Magritte.

O suicídio da mãe nas águas do rio Sambre era mantido sob um silêncio profundo pelo artista. “Ele não falava sobre as coisas que o tocavam profundamente” confessou certa vez Georgette. “Ele as pintava.” O casal não teve filhos e a grande paixão eram os lulus-da-pomerânia, cães a quem devotavam todo afeto.

Magritte e o surrealismo

Na Europa, o período entre as duas guerras (1918-1939) ficou conhecido como “os anos loucos”. Na época, a incerteza sobre a predominância da paz levou ao desejo de “viver apenas o presente”. Foi nesse período de insatisfação e contradições que surgiram diversos movimentos artísticos voltados para uma nova interpretação e expressão da realidade.

Esses movimentos ficaram conhecidos como “vanguardas europeias”. O Surrealismo foi uma dessas correntes e teve como precedente indispensável o Dadaísmo e a pintura metafísica de Giorgio de Chirico (1888-1978).

O surrealismo surgiu como um movimento literário e político, mas teve um profundo impacto nas artes plásticas, na fotografia e no cinema. Influenciado pela obra psicanalítica de Freud, os surrealistas visavam revelar o inconsciente usando imagens oníricas que contradiziam a percepção da realidade. Porém, Magritte contestava a psicanálise e as ideias freudianas, mas era fascinado pela filosofia.

“Magritte foi o mais filósofo de todos os pintores porque sua arte é repleta de sabedoria e imaginação”, comenta o colecionador e fundador do museu René Magritte, André Garitte, em entrevista à RFI Brasil. “Na aplicação da filosofia na arte ele era realmente genial.”

“Os objetos que Magritte pintava não representavam símbolos, eram simplesmente usados para criar situações bizarras e paradoxais. Era isso que o interessava” explica Garrite. “Magritte não gostava de explicar nem de analisar seus quadros; mas o paradoxo é que para terminar algumas telas ele mesmo as analisava em profundidade”.

Hoje, Magritte é talvez o mais conhecido de todos os artistas surrealistas, rivalizando apenas com Salvador Dalí. Certa vez, Dalí afirmou que “Magritte era um pintor exemplar. Foi ele que nos deu os exemplos mais surpreendentes de linguagem poética.”

A partir de 1910, o artista italiano Giorgio de Chirico surge como um dos pioneiros da arte moderna. Sua obra influencia gerações de pintores e inspira o movimento surrealista. De Chirico, que tinha a capacidade de fazer o observador ter um novo e perturbador olhar sobre coisas familiares, era reverenciado por Magritte. “Quando vi uma reprodução do quadro “O Canto do Amor”, de De Chirico, foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida: meus olhos viram o pensamento pela primeira vez”, confessou o artista belga. Foi uma das únicas vezes que Magritte chorou.

O “Primeiro Manifesto Surrealista”, foi publicado em 1924, em Paris, pelo poeta e crítico de arte André Breton em Paris. Poucos anos depois, em 1929, o Surrealismo se tornou o centro das artes com Breton, Max Ernst, Salvador Dalí, Joan Miró e René Magritte, que se mudou de Bruxelas para Pereux-sur-Marne, nos arredores parisienses. Naquela época, morar em Paris era quase obrigatório para um artista avant-garde. Ao contrário de outros surrealistas, Magritte era uma pessoa perturbadoramente comum, sempre vestia um sobretudo, terno e gravata.

As relações do artista belga com os colegas franceses nem sempre foram boas, especialmente com Breton. Ele até seguia certas exigências de Breton, mas a amizade entre eles começou a desmoronar por causa de uma desavença. Convidado para uma recepção na casa de Breton, Magritte apareceu acompanhado de sua esposa Georgette, que usava um colar com um crucifixo. Ao ver o crucifixo, o anfitrião exigiu, com sua habitual arrogância e autoritarismo, que ela o retirasse. Georgette não obedeceu e o casal resolveu ir embora. Na verdade, o episódio serviu para agilizar a volta para Bruxelas, em 1930, colocando assim um fim na temporada francesa dos Magritte.

Império das Luzes

A volta para Bruxelas foi também retornar para o seu círculo de amigos formado principalmente por escritores belgas francófonos. Além do mais, Magritte vendia mais quadros em Bruxelas do que em Paris. Os colecionadores de arte do século XX eram mais numerosos na Bélgica do que na França. Hoje, as telas do artista valem milhões de dólares.

“O Império da Luzes”, um dos quadros mais famosos de Magritte, foi vendido em um leilão em Londres por quase US$ 80 milhões – o equivalente a R$ 407 milhões – em março passado, um recorde para uma obra do surrealista belga. A tela faz parte de um conjunto de 16 pinturas a óleo que constituem a única verdadeira tentativa de Magritte criar uma série.

O quadro mostra uma casa típica de Bruxelas à noite, iluminada por um candeeiro de rua e a luz que vem do interior do imóvel, através das janelas, enquanto o céu azul claro com nuvens parece indicar que é de dia. A combinação estranha de uma rua sombria à noite, sob um céu azul, é típica do surrealismo desconcertante de Magritte, onde duas coisas aparentemente incompatíveis se associam para criar uma “falsa realidade”.

Universo Magritte

Cinquenta e cinco anos após sua morte, o universo de René Magritte continua fascinando. O mestre do surrealismo inspirou vários artistas modernos e contemporâneos como Marcel Broodthaers, Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Jaspers Johns, Keith Haring, bem como na cultura pop e na publicidade.

Antes de conseguir vender seus primeiros quadros, Magritte criou cartazes publicitários, os “trabalhos imbecis” como os chamava, para sobreviver. Na época, nunca poderia imaginar que sua obra se tornaria tão popularizada que passou a ser quase um sinônimo de imagem publicitária.

Talvez muitos não saibam mas a maçã verde usada nos anos 60 como logo da gravadora Apple dos Beatles não foi uma idéia de John Lennon ou Paul McCartney. A marca veio de uma tela de Magritte chamada “O Jogo da Mora”.

O mesmo se deu com o símbolo da rede americana CBS, copiado na década de 1950 do quadro “Espelho Falso”, que mostra um olho cuja íris reflete um céu azul entrecortado por nuvens. Com Magritte, até o cinza do céu belga se transforma em um luminoso céu de azul claro.

O jogo entre os opostos, o oculto e o que é revelado, o inerte e o que está vivo é típico do estilo Magritte. Outra especialidade do artista belga é o senso de derrisão, o rir com desprezo, uma característica que o acompanhou desde a infância. Seu alter ego, presença frequente em suas pinturas, era um funcionário anônimo de chapéu-coco e terno, morador de um subúrbio de Bruxelas, assim como ele próprio. Nada mais paradoxal em relação à sua obra.

René Magritte e o francês Marcel Duchamp são considerados os dois fundadores da arte contemporânea. Porém, Magritte se considerava menos um pintor do que um pensador, cujas ideias se concretizavam em imagens. Ele gostava de confundir o espectador com as situações inusitadas que pintava, usava os objetos do cotidiano para fragmentar o real e inserir a estranheza dos sonhos. “O mundo de Magritte é uma sala de espelhos, mas até mesmo seus espelhos são distorcidos”, escreveu o jornal The Washington Post.

No final de sua vida, a fama de Magritte espalhou pelo mundo e em 1965, ele ganhou uma grande retrospectiva no MOMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Apesar dos problemas de saúde, o surrealista belga fez sua primeira e única viagem aos Estados Unidos para participar da exposição. No ano seguinte, ele e Georgette ainda visitaram a Itália e Israel. O cantor e compositor americano Paul Simon compôs a canção “René and Georgette Magritte with their dog after the war”, em homenagem ao artista. Em 1967, aos 69 anos, René Magritte, morria de câncer em sua casa na rua das Mimosas, no bairro de Schaerbeek, em Bruxelas.

“Todos nós somos um mistério; e somos parte de um mundo que é um mistério ele mesmo”, dizia a artista.

Onde ver Magritte

O Museu René Magritte, em Bruxelas, reúne documentos, cartas, fotos, aquarelas, quadros e cartazes publicitários do artista. Inaugurado em 1999, o museu está instalado na rua Esseghem, nº 135, no bairro de Jette, e foi a casa onde o pintor surrealista viveu e trabalhou durante 24 anos (1930-1954). O museu mostra uma reconstrução fidedigna do andar térreo onde Magritte e Georgette moraram. O artista nunca teve um ateliê e preferia pintar no canto de uma sala. Nos dois outros andares, a coleção do museu, e nos fundos do jardim, o estúdio batizado de Studio Dongo, onde ele realizava os trabalhos de publicidade.

Foi na sala de jantar, que servia também de ateliê, que Magritte pintou suas obras mais importantes. Metade de todos os seus quadros e aquarelas nasceram ali. Sua imaginação era tão rica, ele vivia tanto dentro dela, que nem se importava muito com o resto. A casa de Magritte era também o quartel-general dos surrealistas belgas. Eles se reuniam todos os sábados para debater política, filosofia e inventar títulos para os quadros do artista.

Para o colecionador e fundador do museu, André Garitte, que conheceu a esposa do artista belga, “dentro do irracional de Magritte havia muita racionalidade, porque existia uma lógica às vezes absurda, nonsense, mas assim mesmo com raciocínio.” Garitte lembra que “quando Magritte era criança, ele já fazia piadas malucas, nada convencionais. Ele sempre adorou as coisas incoerentes, nada normais.”

O Museu Magritte, localizado bem no coração de Bruxelas, na Place Royale, oferece uma retrospectiva da vida de Magritte. Os três andares do museu reúnem a mais vasta coleção do artista: 230 obras entre pinturas, desenhos, filmes, guaches, cartazes publicitários, fotografias e documentos. O museu também contém a coleção mais importante do período “vaca” do artista, que produziu uma série de pintura com tons berrantes com o propósito de confundir os marchands parisienses e escandalizar o bom gosto francês. A cada ano mais de 300 mil visitantes do mundo inteiro descobrem a vida e a obra de René Magritte.

A Menil Collection, em Houston, Texas, tem uma reputação merecida por seu acervo de notáveis artistas ligados aos movimentos Dadaísta e Surrealista. O casal Menil começou a colecionar o surrealismo no final da década de 1940, hoje seus acervos incluem mais de 300 pinturas, esculturas e trabalhos em papel. René Magritte é um dos artistas que formam o núcleo da coleção surrealista do museu. O famoso quadro “Golconde”, de 1953, que faz parte do acervo, mostra uma chuva cujas gotas são homens de chapéu-coco, que caem do céu com uma expressão serena de quem não se abala com o que está acontecendo, apesar de ser uma cena improvável do dia-a-dia, com o real e o irreal que se misturam.

Fonte: https://br.noticias.yahoo.com/ren%C3%A9-magritte-o-universo-surrealista-180229387.html

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